O Bambu Está Bombando

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O bambu e suas fibras são utilizados na construção civil em várias partes do mundo há cerca de seis mil anos, principalmente no Japão, China e Filipinas. Aqui no Brasil está começando a ganhar adeptos para esse fim, mas seu uso já faz sucesso em projetos modernos e sustentáveis de decoração e paisagismo, principalmente como revestimento, forração e cercas ou como parte de móveis e na confecção de outros objetos.

Além de bonito e resistente – se tratado adequadamente pode durar mais de 25 anos – o bambu diminui a incidência de sol quando usado sob coberturas transparentes, por exemplo, reduzindo a temperatura interna em até 90%, e ainda dá um toque para lá de especial aos ambientes ao mesclar luz e sombras.

No Rio de Janeiro, dois empreendedores apostaram na planta como matéria-prima de seus negócios: o designer Thiago Guigues, que criou a Pau a Pique Design há mais de 15 anos e trabalha sob encomenda na criação de peças que unem madeira e bambu; e o arquiteto Charles Gamarra, da Bambu Ambiental, que há 21 anos vende bambu in natura e executa projetos de interiores, exteriores e mobiliários.

Thiago apostou na paixão por materiais naturais e sustentáveis que o acompanha desde a infância e fez faculdade de design já com a intenção de unir o útil ao agradável. Em 2001, pegou um empréstimo de cerca de R$ 20 mil num banco para comprar suas primeiras ferramentas e se dedicar à produção de peças que têm o bambu como matéria-prima. Começou a trabalhar informalmente e conseguiu ter retorno do capital investido em cerca de 18 meses. Alguns anos depois, legalizou o negócio e fez novos investimentos.

Localizada em Vargem Grande, a Pau a Pique faz revestimentos e forrações utilizando três espécies de bambu: Cana-da-Índia, Mossô, Guádua e Gigante, dependendo do tipo de estrutura (definitiva ou temporária), a um custo que varia de R$ 200 a R$ 350 por metro quadrado. No ano passado, o faturamento da empresa foi de R$ 170 mil ou cerca de R$ 14 mil por mês, com lucro médio de 50%. A empresa adquire o material de fornecedores do Rio e de São Paulo, em média de 300 a 400 varas de cerca de cinco metros, a cada dois meses.

“Abri um bom campo de atuação mesclando bambu e madeira na execução de projetos residenciais, cenografias para grandes empresas e eventos corporativos e de moda, que exigem estruturas mais leves”, explica.


ESPÉCIE EXÓTICA


Charles Gamarra criou a Bambu Ambiental para investir na plantação de Bambusa Chungui, quando encontrou a espécie exótica, originária da China e muito procurada, nas terras da fazenda que adquiriu há cerca de duas décadas, em Xerém. Atualmente tem quatro hectares de terra plantados de bambu in natura em áreas antes degradadas. A distância entre os nós deste tipo de bambu (tradicionalmente usado em varetas de pipa) chega a 120 centímetros, enquanto os tradicionais têm de 40 a 50 cm.

A Bambu Ambiental vende varas de 12 a 15 metros a R$ 80 a dúzia, além de elaborar e executar projetos de cercas, forrações, estruturas e pergolatos ao valor de R$ 130 a R$ 200 o metro quadrado tratado e instalado. O investimento foi feito paulatinamente ao longo dos anos e hoje a empresa tem três galpões de processamento do bambu, com faturamento mensal de R$ 10 mil.

“Executamos projetos de terceiros e também elaboramos soluções diferenciadas e adequadas às necessidades de cada cliente. O bambu tem características físicas resistentes e pode durar muitos anos mesmo em áreas abertas, expostas ao sol e à chuva, se tratados adequadamente”, ressalta.

São Paulo é o endereço da Bambu Carbono Zero, empresa que investe em toda a cadeia produtiva da planta, desde o plantio até a comercialização de bambus autoclavados e a oferta de uma gama de produtos para a construção civil. A empresa cria e executa projetos em ambientes internos e externos, com garantia de 10 anos.

O engenheiro ambiental Danilo Candia trabalha com bambu há 20 anos, desde que participou de projetos ainda experimentais em Caraguatatuba e Maresias, no litoral paulistano. Depois de passar por experiências também em Angra dos Reis, fundou a empresa no ano de 2007, em sociedade com a mulher, paisagista, e fez investimentos de R$ 20 mil na época. Com o tempo, afirma ele, mais de R$ 3 milhões já foram destinados à Carbono Zero, capital ainda sem retorno.

A empresa movimenta dois caminhões de bambus por mês, o que corresponde a 700 metros quadrados, ou seis mil metros lineares, das espécies Gigante, Mossô e Cana-da-Índia, e reúne um portfólio com mais de 1,2 mil obras executadas no país. O faturamento mensal chega a R$ 60 mil. O valor dos projetos varia em função da complexidade e do material exigido, mas para revestimento com esteira tramada de bambu, por exemplo, o preço final do metro quadrado é de R$ 80. O custo de produção gira em torno de 50%.

“O bambu começa a estabelecer o diâmetro ideal a partir dos 4 anos, mas é preciso esperar que amadureça para fazer a primeira colheita. A partir daí, dá corte todos os anos. É um material que pode substituir a madeira em qualquer tipo de construção”, afirma.



Fonte: O GLOBO - 6 de novembro de 2017